terça-feira, 2 de abril de 2013

Uma rua inteira mal-assombrada


Uma rua inteira mal-assombrada


Da chamada avenida Malaquias, que liga as estradas de Dois
Irmãos e do Arraial, e é hoje uma rua banal, já se disse que teve
fama de ser ela inteira mal-assombrada. Ainda a conheci com
suas velhas e grandes jaqueiras e mangueiras e quase sem uma
casa por trás dos muros altos, onde de dia os moleques se
divertiam traçando calungas e sinais obscenos. Os mais doutos,
escrevendo palavrões de arrepiar a própria gente grande. Parecia a
chamada avenida um resto de mata, fantasiado de rua; e a rua,
uma caricatura de avenida.
Mais de um homem incauto foi assassinado à sombra
daquelas jaqueiras tristonhas e gordas. Ficou célebre o
assassinato do chefe da estação de Ponte d’Uchoa. Uma cruz de
pau recorda ainda hoje esse crime.
No tempo da iluminação a gás, a chamada avenida
Malaquias era o pavor dos acendedores de lampião. Mais de um
acendedor correu gritando como um menino com medo,
apavorado com assombração na avenida. Vultos brancos debaixo
das jaqueiras ou espojando-se na lama: talvez lobisomens
cumprindo o fado. Bichos estranhos às carreiras: talvez mulassem-
cabeça. Mulas-de-padre, vindas do lado Capunga. E vozes.
Vozes estranhas. Vozes do outro mundo. Uma, certo acendedor de
lampião ouviu-a bem ao pé do ouvido. Obrigou-o a fala fanhosa de
duende a correr como um doido para a padaria do Castor, sem
mais querer saber de apagar lampiões naquele ermo.
Dizia a voz: “Não me deixes no escuro!” O que contraria
quase tudo que se sabe a respeito de fantasmas. Os ortodoxos são
amigos do escuro e inimigos das luzes de lampião e até de
lamparina.

Foto ilustrativa (Rua do Bom Jesus)



Esse é um conto presente no livro "Assombrações do Recife Velho" do grande Gilberto Freyre, onde reúne contos sobre a cidade do Recife-PE.
Eu super indico esse obra literária  que pode ser encontrada para Download na Web ou em grandes livrarias.


Fonte:  

Gilberto Freyre: Assombrações do Recife Velho

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